Crítica: O Cortiço.

No último final e semana (8 e 9/4) no teatro Margarida Schivasappa foi apresentado a montagem do clássico naturalista O Cortiço, obra do autor brasileiro Aluísio Azevedo (1857 – 1913) que faz um recorte acerca da vida nas estalagens cariocas no final do século XIX.
Similar ao livro o espetáculo nos introduz a história mostrando a relação entre João Romão – dono do Cortiço – e a escrava Bertoleza – sua fiel e submissa amante. Aqui temos uma cena demasiadamente longa que poderia ter sido resumida em poucos minutos, não pela carga dramática da cena mas sim pela falta de feeling entre os interpretes; João Romão carrega toda a cena, um bom ator, porém mal aproveitado ao longo do espetáculo; enquanto Bertoleza se resume a fazer caras e bocas estereotipadas. O Black Face me incomodou, é um artificio antigo e que se tornou ofensivo nos dias de hoje.
O núcleo das lavadeiras é a melhor parte do espetáculo. Há uma interação grande entre todos os personagens e serve otimamente como alívio cômico para a trama, as personagens são escrachadas e debochadas, se o cortiço não funcionasse comprometeria o restante da peça.
A Personagem Rita Baiana por algum motivo era muito saltitante, possuía um excesso de gingado que não condizia com a mudança das cenas. Deveria ser a representação da mulher brasileira, porém se limitou a tentar provar uma liberdade sexual que não foi muito bem explorada, na qual parecia uma menina desvairada o que é claramente diferente da Rita do livro. Rita deveria ser forte, expoente, que quebra tabus e que foge do convencional, é provável que fosse necessário um desdobramento maior no processo de construção da personagem. A Interação com Jerônimo foi muito rasa, não ficou claro se havia amor entre os dois ou se Rita estava apenas em busca de uma noite de prazer. O personagem Jerônimo foi muito genérico, não há muito o que falar dele devido à falta de expressividade na atuação.
Piedade foi a personagem mais bem construída de todo o espetáculo, era sóbria nos momentos certos e soube fazer bem a transição entre o orgulho e a decadência. Uma boa atriz que me deu uma agradável surpresa pois nunca havia visto o seu trabalho antes, tanto que ouso dizer que foi uma das melhores no palco.
Quanto a iluminação, a luz não teve fluidez, foi dura e não cooperou na construção dos ambientes (quando era noite a luz era clara, quando havia uma luta a luz era azul e etc…) e o uso desleixado do Strobe incomodou muito os olhos, se o propósito foi dar uma sensação de ação as cenas, o uso do elemento não foi bem administrado. O espetáculo contou com um cenário lúdico sem grandes mudanças ou variações e fixo para todas as cenas, o que funcionou muito bem.
Quanto à disposição das personagens no palco, a direção não soube organizar e usar o espaço disponível, tanto que em quase todas as cenas os atores formavam uma reta frontal ao público, fosse em momentos dinâmicos ou não. Os atores que tiveram melhores desenvolvimentos no espetáculo não foram tão valorizados pela direção, talvez por haver personagens desnecessários a trama. Dava para fazer um espetáculo mais fluido e fácil de dirigir se tirasse a metade desnecessária do elenco. Não havia um narrador no espetáculo, porém em determinada cena entra uma narração o que causou uma grande estranheza.
Os cantores não integravam o espetáculo, bem como não eram personagens o que dava a sensação de que em determinados momentos a peça dava uma pausa e iniciava-se um Pocket Show. Se você tem cantores no elenco por que não utiliza-los NO ELENCO?
A direção soube introduzir o artificio cômico as cenas, o que funcionou bastante, porém o lado cômico perdurou por todo o espetáculo a ponto da plateia não levar a sério as cenas que deveriam ser mais dramáticas, ou seja, faltou um equilíbrio entre a comédia e o drama. Nos momentos engraçados a plateia ria, nos momentos tristes a plateia ria, eu tive a sensação de que estava cercado por uma plateia que ria de tudo! E é fácil agradar uma plateia que aceita tudo. A direção não cumpriu um dos seus principais papeis: conduzir o público nas diferentes sensações propostas pelo espetáculo. É uma direção linear e sem muitas inovações ao contar o enredo.

*Baseado na sessão das 20h do dia 08/04/17

 

danmoura